18/12/2018 às 08:40h
'Possuo uma missão, mas quem faz as curas é Deus'
© Foto: Igo Estrela/Metrópoles/Reuters

O médium João Teixeira de Faria, o João de Deusnegou as acusações de abuso sexual durante depoimento prestado na noite de domingo, 16, logo após sua apresentação às autoridades. O líder espiritual afirmou ter sofrido ameaças, disse que não fez movimentações financeiras e que possui 'uma missão'.

O depoimento foi obtido com exclusividade pela TV Anhanguera, afiliada da Rede Globo.

De acordo com João de Deus, antes mesmo das denúncias serem divulgadas na semana passada, ele recebeu ameaças por telefone de um homem. "Eu tenho 50 pessoas para acabar com você. Se você colocar 100, eu coloco 200 e, se você aumentar isso, eu coloco 1 mil. Eu vou acabar com você", disse o médium.

Por mais de quatro horas, João de Deus respondeu a perguntas dos policiais da força-tarefa que investiga as denúncias de abuso sexual relatadas ao Ministério Público. Nesta segunda, 17, a promotoria disse ter registrado mais de 400 acusações contra o médium.

João de Deus negou participação nos crimes. Ele disse se lembrar de uma paciente - hoje, uma das denunciantes - e afirmou que ela fez o tratamento junto do namorado e não teria credibilidade, que tinha 'problemas'.

O líder espiritual afirmou que, apesar de alguns de seus atendimentos serem particulares, a sala é aberta, com portas transparentes, visível do exterior e está sempre aberta, exceto quando o próprio paciente decide trancá-la. João de Deus também respondeu a acusações de que coagia pacientes para comprar remédios e afirmou que ajuda aqueles que não têm condições financeiras.

"Possuo uma missão, mas quem faz as curas é Deus".

Movimentação financeira

Os policiais também questionaram João de Deus sobre seu patrimônio e a movimentação financeira em sua conta e suas aplicações. Segundo o Ministério Público, o médium teria movimentado R$ 35 milhões logo após a revelação dos primeiros casos.

João de Deus disse que os descontos que ocorreram em sua conta foram referentes ao pagamento de funcionários. O médium afirma ganhar R$ 60 mil por mês, fruto de sete fazendas das quais é dono em Goiás, e disse receber pela extração de pedras preciosas realizada em duas dessas propriedades. Ele não soube dizer o quanto ganha pelo trabalho.

Além das fazendas, o médium disse que tem vários carros e casas, mas não sabe a quantia exata pois alguns bens já foram doados aos filhos.

Prisão

João de Deus se apresentou ao delegado-geral da Polícia Civil, André Fernandes, na tarde de domingo, 16. Ele foi conduzido à Delegacia Estadual de Investigação Criminal (DEIC), onde foi interrogado por mais de quatro horas até ser levado ao Instituto Médico Legal para prestar exame de corpo de delito. No fim da noite, ele foi posto em uma cela no Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia, a 20 quilômetros da capital.

Após o depoimento, o delegado Fernandes afirmou que o médium utilizava a fé das pessoas para a prática de abusos sexuais e, por essa razão, ele pode ser enquadrado pelos crimes de 'violência sexual mediante fraude'.

As investigações se concentram em 15 casos e está em fase de formação de prova. Mais cedo, o Ministério Público afirmou que já recebeu mais de 400 relatos contra João de Deus vindos de diversos Estados e pelo menos outros seis países - Alemanha, Austrália, Bélgica, Bolívia, Estados Unidos e Suíça.

 

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA ALBERTO ZACHARIAS TORON, QUE DEFENDE JOÃO DE DEUS

1. O Ministério Público vem falando em ocultação de valores e lavagem de dinheiro em razão do suposto "saque" de RS 35 milhões do Banco por João de Deus. Em primeiro lugar, o relatório do COAF descreve o resgate de aplicações financeiras, não saque. Como sabem os promotores de justiça, não se lava dinheiro limpo, não se lava dinheiro que é seu e estava no banco .

2. Sequer está claro se houve realmente movimentação nesse valor. Pelo que a defesa teve conhecimento, apenas uma aplicação foi resgatada e em valores menores .

3. Até agora, tivemos acesso apenas a algumas poucas declarações, todas fornecidas pela Polícia Civil de Goiânia e, nelas, não há qualquer referência à participação de terceiros nos fatos narrados. Parece estar havendo um processo intimidativo indevido, talvez para ensejar novas denúncias e declarações.

4. Por fim, importante esclarecer que estivemos diversas vezes na sede do Ministério Público em Goiânia e, até agora, tivemos acesso a apenas um procedimento investigativo o qual, para surpresa da defesa, tem apenas cópia das matérias do Fantástico, sem cópia de nenhum dos inúmeros depoimentos que estão sendo divulgados pela imprensa.

A complexidade das suspeitas exige serenidade e tempo para que seja realizado um julgamento justo, imparcial e válido.

Alberto Zacharias Toron

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