23/07/2017 às 10:57h
Temer e Maia, a queda de braço cada vez mais explícita em Brasília

A lógica por trás da ofensiva do DEM é simples: ao se fortalecer– incorporando novos deputados, teria uma bancada mais influente não só na primeira votação que pode levar à saída de Temer como nas futuras que se projetam. Sem falar nas vantagens diretas de ter mais parlamentares, como conseguir tempo de TV nas campanhas e, eventualmente, mais verba pública se mudarem as regras de repartição do fundo partidário. O PSB, cuja ala governista é liderada pelo ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, parecia presa certa desde que desembarcou da base de Temer após virem à tona as delações da JBS, em maio. A decisão não agradou a todos, muito menos a ordem do partido de votar contra as reformas liberais do Governo. Por isso é que se estima que dos 36 integrantes de sua bancada, cerca de um terço pode debandar para outras siglas.

O benefício mais imediato seria mais poder na definição do destino de Temer. Cabe a Maia colocar a denúncia contra ele para ser votada na Câmara, o que ele pretende fazer no dia 2 de agosto. O número mágico na votação é 342. É só com a anuência de 342 deputados, ou dois terços da Casa, que o Supremo Tribunal Federal poderá decidir se processa ou não o presidente pelo crime de corrupção passiva a ele atribuído pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Se o STF der sinal verde à ação, Temer ficará afastado do Planalto e é o presidente da Câmara quem assume.

Foi justamente na ânsia de garantir a todo custo que a oposição não terá os 342 votos é que Temer acabou colidindo com seu aliado mais estratégico. Na terça-feira, o presidente fez sua ofensiva para tentar angariar socialistas para o seu PMDB. Ao engrossar as fileiras da sigla, o Planalto não só impediria o fortalecimento de Maia como tentaria se blindar contra denúncias vindouras _além da acusação de corrupção a passiva, outras devem ser apresentadas pela PGR até o final do ano. Mas algo deu errado e a discussão inteira veio à praça pública aumento a tensão em pleno recesso parlamentar.

Tudo começou na terça, quando Temer decidiu visitar a líder do PSB na Câmara, Tereza Cristina (MS), e convidou os deputados governistas do partido a ingressarem no PMDB. Carlos Siqueira, presidente nacional do PSB e um crítico feroz do peemedebista, foi contundente: “Um presidente tratar de cooptação de deputado na casa de uma deputada não é propriamente uma agenda de presidente da República (...) Ele deveria estar envolvido na solução de problemas em vez de se dedicar à solução de problemas partidários visando salvar a sua própria pele”. Antes, Siqueira já havia criticado o assédio também dos democratas, que negam qualquer movimento.

A visita do presidente à deputada acabou provocando novos capítulos públicos na novela Temer e Maia, acompanhada com lupa em Brasília. No mesmo dia, o presidente e o presidente da Câmara se reuniram na casa do democrata para um jantar, e negaram qualquer rusga com relação ao assunto. Temer afirmou que as articulações partidárias ficam a cargo do presidente do partido, o senador Romero Jucá (RR), também investigado pela Operação Lava Jato. Por sua vez, Jucá negou qualquer manobra para prejudicar o DEM, considerado um “aliado de primeira hora”, segundo afirmou o parlamentar à Folha de S.Paulo. A deputada socialista, no entanto, contradisse os peemedebistas:  “Estamos sendo assediados por alguns partidos. Ele [Temer] falou com a gente sobre a possibilidade do PMDB. [Perguntou] se já tínhamos pensado nisso”, disse à Folha.

Maia, presidente interino

É neste clima de tensão mal disfarçado que Rodrigo Maia assume interinamente a Presidência brasileira nesta quinta, quando Temer viaja à Argentina para reunião semestral do Mercosul. O deputado segue se dizendo leal ao presidente, mas em entrevista à GloboNews permitiu-se se queixar dos assessores do Planalto que, segundo ele, falam demais e produzem os desencontros que vão parar no noticiário.

Seja como for, a percepção de parte do aliados de Temer é de que Maia segue sem mexer uma palha para ajudar o presidente sob o pretexto de que age como um comandante da Câmara imparcial. No caso da decisão sobre como será a votação da denúncia, certamente o desfecho não agradou ao Planalto. Por decisão da Secretaria-Geral da Mesa Diretora da Câmara, subordinada a Maia, o rito da votação será o mesmo da sessão de aceitação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff pela Câmara, em abril de 2016. Cada deputado terá até cinco minutos para declarar seu voto ao microfone. Este modelo aumenta o desgaste daqueles que irão defender um presidente da República, que conta com apenas 7% de aprovação segundo o Datafolha, com transmissão ao vivo pelas redes de TV. 

A repetição do rito do impeachment foi um pedido feito pelos parlamentares da oposição – e acatado pelo presidente da Casa. O democrata afirmou que o tudo seguirá os preceitos do regimento interno da Casa sobre o assunto. Mas o artigo 217, que fala sobre a aceitação de denúncia e afastamento do presidente, não exige que a votação seja ao microfone. Em outras ocasiões, em matérias polêmicas e impopulares, como a reforma trabalhista, a votação foi feita no painel.

Herdeiro da Arena, antigo PFL teve auge no Governo FHC

O DEM já teve a maior bancada da Câmara em 1998, no Governo FHC, com 105 deputados federais, e foi minguando durante as presidências de Lula e Dilma. Em meio à redução, resolveu em 2007 adotar o nome que leva agora, deixando para trás o PFL (Partido da Frente Liberal). Chegou a 2017 com apenas 29 parlamentares – a oitava bancada.

Apesar do nome, a história do partido Democratas está intimamente ligada ao Arena (Aliança Renovadora Nacional), legenda que sustentava a ditadura militar no país. Com o fim do sistema bipartidário, a Aliança se transformou em Partido Democrático Social, e de uma dissidência deste veio o PFL, em 1985.

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