30/05/2017 às 12:00h
Tite: “Não tenho nenhuma vocação para a política”

Enquanto expõe suas ideias e princípios ao EL PAÍS, um dia antes de comemorar 56 anos, Adenor Leonardo Bachi, o Tite, sorve calmamente uma xícara de café em sua sala na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O prédio leva o nome de José Maria Marin, ex-presidente da entidade que está preso em Nova Iorque desde 2015. Marco Polo Del Nero, sucessor de Marin na presidência, também foi indiciado pelo FBI e aparece em investigação da procuradoria espanhola como um dos supostos receptores de propina em negócios da confederação.

Para realizar o sonho de treinar a seleção, Tite topou emprestar sua credibilidade, que o faz ser cotado por parte dos brasileiros à Presidência da República, a uma entidade devassada por inquéritos e controvérsias. Antigo crítico da CBF, ele afirma ter autonomia para tocar seu trabalho sem a interferência dos dirigentes e se sente à vontade para cobrar conduta ética tanto no futebol quanto na política. O técnico diz acompanhar com preocupação os escândalos de corrupção que sacodem o país e, sobretudo, os clamores por intervenção militar que pipocam nas ruas e nas redes sociais. “Ditadura não é solução”, afirma, deixando explícita sua rejeição a figuras como o deputado de extrema direita Jair Bolsonaro, por entender que “não há espaço para radicalismos no Brasil”.

Acumulando oito vitórias em oito jogos pela seleção, ele está prestes a completar um ano no cargo e acredita que boa parte do sucesso da equipe sob seu comando se deve à metodologia de utilizar jogadores de acordo com as funções que cumprem em seus respectivos clubes. Admirador declarado do italiano Carlo Ancelotti, Tite fez questão de estreitar laços com as comissões técnicas dos clubes brasileiros e europeus para entender como pode potencializar o desempenho de seus convocados na seleção. A classificação antecipada para a Copa do Mundo de 2018 foi recebida com alívio pelo treinador que se tornou uma rara unanimidade nacional em um período conturbado do país. “Eu poderia ficar marcado como o cara que não classificou o Brasil para a Copa do Mundo.”

Pergunta. Como você tem recebido os pedidos por “Tite presidente” e a pesquisa que aponta seu nome com 15% das intenções de voto para 2018?

Resposta. Eu levo essa história como uma brincadeira e uma demonstração de que os brasileiros estão felizes com a seleção brasileira. Não só com o resultado, mas com o jeito que a equipe está jogando. Eu interpreto dessa forma. Como ser humano, eu torço para que a sociedade consiga caminhar para ter mais igualdade social e para que todos os responsáveis por crimes de corrupção sejam punidos. Impunidade é algo que me machuca. Eu vibro muito quando o Ministério Público e a Polícia Federal cumprem seu papel e não se deixam pressionar por interesses políticos. Isso sem contar a imprensa, que nunca foi tão importante para ajudar a esclarecer os fatos. Apoio todos os procedimentos que trazem a verdade à tona.

P. Já recebeu convites para se filiar a algum partido?

R. Qualquer pessoa que me conheça minimamente não vai chegar perto de mim para propor filiação ou qualquer outro envolvimento com partidos nesse momento. Eu sou uma pessoa que se preocupa com o que se passa além do futebol. Quero fazer alguma coisa positiva através do meu exemplo. Mas não tenho ambição política nem pretendo me candidatar a nada. Não é o que eu busco. E também não tenho nenhuma vocação para a política.

P. Antes de se tornar treinador, você chegou a fazer militância partidária?

R. Eu participava do grêmio estudantil na faculdade e externava minhas opiniões. Mas nunca me envolvi com partidos políticos.

P. Não se engajou nem mesmo nos movimentos contra a ditadura militar?

R. Esses dias eu estava conversando com meu filho. Ele não pegou a época da ditadura. A gente assistia a um programa na televisão e um analista político pontuou que muitas pessoas, descrentes com a política, passaram a aventar situações do passado como solução à crise, tipo o regime militar. E aí meu filho me fez uma pergunta: “Pai, como é que era a ditadura?”. Mostrei pra ele o quanto eu fico chateado de ver pessoas na rua cogitando a possibilidade de que uma ditadura possa solucionar algo. O que a gente teve de gente morta, de incapacidade de dar opiniões, de cerceamento à liberdade de imprensa, de corrupção que não era investigada naquele período… Definitivamente, não é esse o caminho. Ditadura não é solução. O caminho passa por uma depuração natural, como também acontece no esporte. É preciso lutar para que o sistema democrático se aprimore e para que os escândalos de corrupção sejam esclarecidos. Tenho certeza que novas lideranças políticas surgirão no Brasil.

P. Quando despontava como jogador de futebol, no interior do Rio Grande do Sul, a ditadura te afetava de alguma maneira?

R. Eu não era diretamente afetado pela ditadura e não tinha informação sobre o que era o regime militar. Hoje eu tenho muito mais informações para compreender o passado. Tem um livro do Marcelo Rubens Paiva [Ainda estou aqui], contando o que o pai dele sofreu na ditadura, que é fantástico. Faz a gente conhecer um pouco sobre a brutalidade da repressão naquela época. Precisamos nos informar sobre isso, independentemente de ter uma ou outra tendência política. Todos nós temos preferências, mas é fundamental conhecer a história.

P. Há algumas semanas, Felipe Melo, do Palmeiras, e Jadson, do Corinthians, se manifestaram a favor do deputado federal Jair Bolsonaro. Você incentiva jogadores a exporem publicamente suas opiniões políticas?

R. As manifestações de cada um são livres. Assim como a nossa interpretação dessas manifestações. Eu tenho meu viés político e minhas convicções. Mas não faço disso o foco do meu trabalho.

P. Como um homem ligado ao esporte, acha que pode dar alguma contribuição nesse momento de instabilidade política do país?

R. Na minha atividade, eu posso e quero contribuir com a sociedade. O esporte educa. É a ferramenta de educação mais barata que o Brasil tem à disposição. Se for jogar uma peladinha de dois contra dois, tu tem de respeitar regras. O Sócrates falava muito disso. O futebol é um instrumento de educação. E qual é a contribuição que posso dar ao Brasil? O exemplo. Eu quero vencer por ser mais competente, mais ético e mais leal, com a autoestima elevada. O que significa autoestima elevada? É não precisar de subterfúgio para vencer. Eu posso ganhar tendo orgulho de ser melhor que o meu adversário. Dentro das regras do jogo, sempre. Isso eu acho do c…! Eu não preciso da arbitragem, só que quero que ela seja imparcial. Eu não preciso da malandragem. Eu posso ser melhor que isso.

P. E aí entra o exemplo do Rodrigo Caio [ele evitou que o atacante Jô recebesse um cartão amarelo no clássico contra o Corinthians depois de se acusar ao árbitro], que você elogiou na última convocação?

R. O gesto do Rodrigo Caio transcende a situação de jogo. Ele não precisa do cartão ao adversário. Ele precisa ser superior. Eu valorizo o processo, não só o resultado. Errar é humano. Mas eu procuro não errar na ideia.

P. Rogério Ceni, técnico do Rodrigo Caio no São Paulo, disse que, se esse for o critério, todo jogador que demonstrar fair play terá de ser convocado…

R. Não quero citar ninguém e nem entrar no mérito da questão. Eu apenas manifesto a minha convicção. Respeito todas as opiniões, mas essa é minha linha de trabalho, com os valores nos quais eu acredito. Cada um que faça as manifestações que bem entender e responda por elas. Mas quero deixar uma situação bem clara [faz uma pausa e pega um papel com estatísticas de jogadores em sua mesa]. O Rodrigo Caio teve quatro convocações comigo, não foi convocado agora. Está na seleção por sua qualidade técnica e conduta pessoal. Eu tenho uma responsabilidade muito grande, de passar uma mensagem à sociedade sobre como se trabalha na seleção. Vai ganhar ou perder? Não sei. Ninguém aqui vai tirar a perna de dividida, mas vai dividir de forma leal. Ninguém vai querer enganar a arbitragem. Queremos ser mais competentes e qualificados, jogando bola.

P. Ao ser apresentado como técnico da seleção, você fez questão de exaltar o trabalho do Dunga, seu antecessor. Ainda assim, mantém a convicção de que deveria ter assumido antes o cargo?

R. [Respira fundo] Eu me preparei e, em 2014, depois da Copa, achei que seria convidado. Entendi que era o meu momento, não o do Dunga ou de qualquer outro técnico. Não porque eu seja melhor, mas porque aquele era o meu momento profissional. Como não fui convidado, entendia que o treinador escolhido deveria terminar sua etapa. Não defendo nomes. Eu defendo uma ideia. Os profissionais no Brasil precisam ter uma sequência de trabalho. Como o futebol mexe muito com a emoção, os dirigentes geralmente não têm a capacidade de bater o martelo e bancar a continuidade de um projeto.

P. O convite só veio após o Dunga ser demitido, quase dois anos depois da Copa. Temia que isso também pudesse acontecer com você?

R. Eu tive dúvidas em assumir a seleção brasileira. Pensei muito. Uma coisa é tu assumir no início de um trabalho e ter 18 jogos pela frente. Outra é assumir no meio do caminho. Eu não tinha tempo para errar. A minha margem de erro era muito pequena. Iríamos enfrentar o Equador, que dividia a liderança das Eliminatórias com o Uruguai, na altitude de Quito, e a Colômbia, que é a equipe sul-americana que mais cresceu nos últimos anos. Pesei tudo isso antes de aceitar o cargo. Eu corria um grande risco. Tinha o sonho de treinar a seleção, mas poderia ficar marcado como o cara que não fez um bom trabalho e não classificou o Brasil para a Copa do Mundo. “Tu sonhou com isso e te fodeu!” Essa apreensão passava pela minha cabeça.

P. Então deve ter se sentido aliviado quando venceu o Paraguai e confirmou a classificação para a Copa…

R. Porra! Tu não imagina o quanto [reclina-se na cadeira e estende as mãos para o alto]. Quando terminou o jogo na Arena [Corinthians], eu peguei a minha esposa depois da entrevista coletiva e fui com ela pro campo. Já estava tudo escuro, o estádio vazio. Sentamos no banco de reservas, eu estiquei as pernas e falei: “A gente vai pra Copa do Mundo”. Foi um grande peso que tirei das minhas costas.

P. Sentiu maior alívio nesse dia ou naquele empate contra o São Paulo, no Morumbi, em 2011?

R. Seguramente foi a classificação da seleção. Naquele 0 x 0, eu tinha um domínio maior do grupo e uma boa sequência de jogos no Corinthians. Foi um jogo importante. Eu tirei o Chicão dessa partida e hoje temos um relacionamento muito legal. É claro que, naquele momento, deu uma estremecida. Normal, natural, foi por motivo disciplinar. Mas nossa grandeza estava acima disso. Poderia acontecer de eu ser demitido em caso de derrota no clássico, mas não tinha essa sensação. Existia uma relação de confiança no trabalho, sobretudo da diretoria. Diferentemente da seleção, em que a gente tinha menos contato [com a direção] e a necessidade de retomar os bons resultados. A pressão aqui foi mais pesada.

P. No mês que vem, você completa um ano como técnico da seleção. Sente falta do trabalho diário com os atletas e a rotina de jogos semanais?

R. Quem sente isso é a minha esposa [risos]. Às vezes eu tô quieto e ela pergunta: “O que é que tu tem?”. “Eu preciso viajar de novo pra ver um jogo ao vivo e entrar na cabeça dos técnicos, entender o que eles estão pensando.” Ela já sabe que eu tenho essa necessidade. Sinto falta do dia a dia do futebol, algo que um técnico de seleção não tem. Ainda estou descobrindo a melhor rotina. Só me toquei que eu tinha de assistir mais partidas com frequência recentemente. Estudava, conversava, convocava, mas precisava voltar a sentir o calor do jogo. Depois que saio e assisto as partidas, eu volto melhor. Eu assisti do estádio o 4 x 0 do PSG sobre o Barcelona. Foi um jogo atípico. Queria ver a volta no Camp Nou, porque sabia que os jogadores do Barcelona entrariam em campo com um sentimento de indignação pela derrota. Infelizmente tive um compromisso da seleção e não pude ir. Mas minha expectativa se confirmou. Gosto de ver como os atletas reagem nessas situações, como a torcida se comporta, como os técnicos trabalham. É um negócio que me fascina.

P. Qual critério utiliza ao escolher as partidas que vai assistir?

R. Dou preferência aos jogos dos selecionáveis e tento sempre assistir in loco. Porque do estádio conseguimos perceber o nível de concentração do atleta em relação à atmosfera do jogo. Vimos a derrota do Monaco para a Juventus, que foi bem superior. Eu esperava mais do Monaco, mas o Jemerson praticamente não cometeu erros. Enfrentar a Juventus no Delle Alpi, torcida bombando em cima, marcando Higuaín e Dybala e ainda manter um nível alto de atuação? Isso é muito, cara, independentemente do resultado da partida. Ninguém falava do Jemerson, por exemplo. Mas fomos pra lá, vimos os jogos do Monaco e ele nos convenceu.

P. Já está analisando os adversários para os próximos amistosos, contra Argentina e Austrália?

R. Vou analisar todas as equipes que o [Jorge] Sampaoli [novo técnico da Argentina] dirigiu, porque nelas estão as ideias dele. Quero conhecer as características, as variações que pode fazer, para projetar o que vamos enfrentar contra a Argentina. Já revi o Brasil x Chile pela Copa do Mundo, que foi um jogo emblemático do Sampaoli. Primeiro, trabalho a nossa equipe. Mas depois, em termos estratégicos, tenho que analisar bem o outro lado.

P. Como apreciador da escola italiana, você pode utilizar um esquema com três zagueiros na seleção, assim como Antonio Conte aplicou no Chelsea nesta temporada?

R. Hoje, pelas características dos atletas, muito difícil. A não ser numa situação circunstancial. Temos um encaixe bem definido. Onde o Neymar joga na seleção é parecido com o Barcelona? É. Onde o Philippe Coutinho joga é parecido? É. Ele só trocou de lado, mas a função é a mesma. Gabriel Jesus? É. Casemiro? É. Eu preciso adaptar o que eles fazem no clube, porque não tenho tempo de treinar. Quem treina os atletas da seleção são os técnicos dos clubes. Eu preciso aproveitar isso de alguma forma. Na preparação para a Copa, teremos um tempo maior. Mas agora é o grande desafio. Apenas faço ajustes em funções que os jogadores já dominam. O Real Madrid sai com os dois laterais e tem amplitude na hora de atacar. Na seleção, eu faço com que os laterais sejam um pouco mais construtores, passadores e armadores. Quero que eles iniciem as jogadas para que a bola chegue melhor na frente. Por isso, dificilmente eu vou utilizar três zagueiros. Mas dá pra fazer 4-2-3-1 com dois registas, que é como os italianos chamam os volantes, alternando saídas ao ataque? Dá. Dá pra fazer duas linhas de quatro com dois atacantes? Dá. Também dá pra fazer um losango com três meias e um articulador no meio-campo.

P. Qual time gosta de ver jogar ou serve como referência para o seu trabalho na seleção?

R. Uma equipe que me marcou, por privilegiar aquilo que eu busco como ideal, foi o Real Madrid do Ancelotti. Conciliava criação com agressividade. Quando tu tem Modric, Toni Kroos, Isco e James, que são quatro jogadores que criam pra c…, e ainda Cristiano Ronaldo e Benzema na frente, p… que pariu! Como é que tu faz pra equilibrar esse time? Aí o Ancelotti segurava o Carvajal e o Marcelo e dava uma sustentação maior do lado esquerdo com o Isco. Era um sistema defensivo forte, com uma linha de quatro jogadores e um processo criativo e ofensivo monstruoso. O Barcelona do meio pra frente é espetacular, mas não tem essa consistência defensiva. E olha que o Ancelotti jogava com jogadores mais ofensivos que o Zidane, porque ele não tinha o Casemiro no time. Ele conseguiu associar criatividade e agressividade com a escola defensiva italiana. É muito difícil alcançar essa harmonia.

P. No ano passado, você se encontrou com o Zidane. Também teve uma boa impressão dele?

R. Meu primeiro contato com ele foi na pré-temporada, nos Estados Unidos. O Zidane nos recebeu antes de uma palestra. Conversamos sobre as características dos brasileiros que defendem o Real e de outros atletas que atuam na Espanha. Os dois jogadores mais completos que eu vi jogar foram Zico e Zidane. Cabeceavam? Cabeceavam! Perna esquerda? Perna esquerda! Finalização? Finalização! Assistência? Sim! Espírito de equipe? Sim! E o Zidane é um cara muito natural, mais comedido, não é de muitas palavras. Antes, eu havia ido ao Real para falar com o Ancelotti e o Zidane estava iniciando nas canteras. Eu vi aquela imagem e pensei: “Puxa vida, o cara tava no campo há pouco tempo e agora tá do lado de fora”. É outro mundo.

P. Se surpreendeu com o desempenho dele como treinador?

R.Zidane é um ponto fora da curva entre craques que se tornaram treinadores. Não me lembro de outro atleta que tenha tido tanto êxito dentro e fora do campo tão rapidamente.

P. Você tem conversado com muitos técnicos de clubes?

R. A relação com técnicos não é tão comum e deve ser construída com calma, limites e cuidados. Era assim quando eu treinava clubes em relação aos técnicos da seleção. Eu esperava uma abertura antes de questionar qualquer coisa. Alguns abriam, outros, não. Me preocupei em abrir um canal de comunicação com todos os técnicos brasileiros. Isso eu fiz. Respeitando quem quer e quem não quer. Da minha parte, quero construir uma relação de confiança com os técnicos dos meus atletas, mas tomo cuidado para não ser invasivo. Eu só mando vídeos aos jogadores depois que eles terminam o último jogo antes de se apresentarem à seleção. Senão eu posso tirar o foco dele no clube. Faço isso porque já estive do outro lado. Não admitia que jogador meu fosse convocado e voltasse da seleção acima do peso. Eu ficava puto da cara. Pô, pegou o atleta em suas melhores condições, devolve o cara bem. Por isso faço questão de enviar relatórios tático, técnico e físico de cada atleta ao clube. Enquanto serve à seleção, ele está sob nossa responsabilidade. Se o atleta voltar acima do peso e o técnico ficar puto, ele tá certo. O clube não pode ser prejudicado.

P. Isso também vale para os clubes estrangeiros?

R. Sim, o Real Madrid é um exemplo. No início do nosso trabalho na seleção, eu fui conversar com Marcelo, Casemiro e Danilo. Houve aquele problema de convocação do Marcelo com a antiga comissão técnica e eu queria resolver isso. Ele teve problemas físicos. O Fábio [Mahseredjian, preparador físico da seleção] se reportou ao departamento médico do Real. Colocamos que iríamos trocar informações e evitaríamos convocar atletas que não estivessem em sua melhor condição. É bom para os dois lados. Não quero uma situação que seja boa para a seleção e ruim para o clube. Não! Estamos em sintonia com os clubes.

P. Há uma nova geração de treinadores, que alia a formação teórica à prática no campo, despontando no Brasil. Acredita que muitos técnicos se tornaram obsoletos nesse processo de renovação?

R. Não podemos confundir estilos com qualificação. Quer ver um cara extremamente contemporâneo e moderno? Abel Braga. Tem ideias novas e uma percepção extraordinária, está fazendo um trabalho de vanguarda no Fluminense. Do outro lado, temos Zé Ricardo, Jair Ventura, Carille, Eduardo [Baptista], Roger [Machado]… O Roger, por exemplo, mudou um conceito de futebol no Atlético, que evoluiu de um time mais agressivo para um time mais posicional, que mantém a posse de bola. Conseguiu fazer isso, o que é bastante difícil, num curto espaço de tempo. Eu sei que meu estilo não agrada a alguns. Normal. Assim como existem estilos de outros técnicos que não me agradam. Mas precisa existir o respeito ao trabalho de cada um.

P. Quais virtudes um técnico precisa ter para ser completo?

R. Completo, nunca vai ser. O grande mérito de um técnico é potencializar os atletas para que eles produzam o seu melhor. E o que mais é importante para um técnico? Ter uma formação universitária e de estudos. O fato de ter sido atleta é um componente. Aquele que não é ex-atleta deve ter sido pelo menos atleta amador. Porque ali estão os mesmos princípios do esporte de alto nível. Competição, respeito, superação… O futebol amador também oferece isso. O Fábio Mahseredjian, por exemplo, não joga nada. Só brincou com bola no videogame e olhe lá. Um dia, faltava um pra completar o treino recreativo. E o Fábio foi jogar. Acabou o treinamento e ele veio me falar: “Cara, a velocidade de raciocínio e execução dos caras é impressionante”. E eu disse: “Tá vendo, como preparador físico, tu precisa ter uma noção de qual exigência o esporte te traz”. Então, precisa dos dois: o estudo e o campo. Por ser professor de educação física e ex-boleiro, eu sei o quanto as duas experiências são importantes. Se eu fosse um ex-atleta e não tivesse a noção de quantificação de carga de trabalho, aliada ao suporte do preparador físico, eu arrebentaria um atleta por falta de informação. Ao mesmo tempo, eu carrego minha bagagem do campo para entender um atleta pelo olhar e tentar tratar a todos de forma igualitária.

P. Isso acontece na seleção em relação ao Neymar, que é o craque do time?

R. Neymar recebe um tratamento exatamente igual ao dos outros. As pessoas incorrem no erro de achar que o Neymar é a grande estrela e tem privilégio. Não tem! Ele quer ser tratado como todo mundo. No início da minha carreira, me diziam: “Pô, tu vai treinar o Zinho”. Um cara campeão do mundo, e eu chegando do interior para trabalhar no Grêmio. Eu pensava: “Bah, como é que eu vou tratar o Zinho?” Eu resolvi tratar do meu jeito. Autêntico, falando, ouvindo. E nos demos muito bem. Não tem diferença pro Neymar. É um cara muito brincalhão. As pessoas não conhecem esse lado dele, de agregar, de brincar com a molecada do sub-20, não de uma forma pejorativa, mas para deixá-los à vontade na seleção. Ele tem uma personalidade que levanta o astral do grupo.

P. Mas em alguns momentos você precisa preservá-lo, não?

R. O que eu digo sempre é que podemos ajustar formas dentro de uma situação que seja igual para todos. Contra a Bolívia, por exemplo, foi o décimo jogo seguido do Neymar e ele estava à mercê de uma lesão. Conversamos com um diretor do Barcelona. Ele disse que haviam programado de poupar o Neymar na quinta partida consecutiva, porque vinha de uma sequência muito grande. Só que nesse jogo o Messi machucou e o Luis Enrique não pode abrir mão do Neymar. Na medida do possível, vou tentar sempre preservar a saúde do atleta. Fazer o resultado e tirar antes, diminuir a carga de trabalho, enfim, realizar os ajustes que forem necessários. Tivemos aquela conduta para preservar o Neymar [suspenso, foi dispensado da viagem com a delegação para a partida contra a Venezuela]. Vamos tratar a todos com igualdade, mas há situações particulares, bem específicas, que precisam ser adaptadas.

P. A comissão técnica encabeçada por Felipão e Parreira afirmava que o Brasil tinha a obrigação de ganhar a Copa do Mundo. Mesmo não jogando em casa em 2018, você também enxerga dessa forma?

R. Eu não gosto de fazer comparações com situações passadas. O que posso dizer, da minha parte, é que a seleção brasileira sempre vai ser protagonista e uma das postulantes ao título. Isso a gente assume. O quanto a equipe vai chegar forte depende do trabalho de consolidação até a Copa. O que marcou em 2014? A grande pressão que atletas e comissão técnica sofreram com a obrigação de ser campeão em casa. Emocionalmente, isso é muito pesado. É desumano. Qualquer coisa que não fosse o título seria insatisfatória. Não me iludo pelo fato de a seleção estar bem agora. Eu sei que as críticas virão e é normal que isso aconteça. Mas acredito que chegaremos preparados para lutar pelo título.

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