10/05/2017 às 07:51h
Ex-Inter e Vasco revela bastidores sujos do futebol, elogia Eurico e procura time

O torcedor vê o gol, a rede balançando, o brilho das estrelas no gramado e sente o vibrar das arquibancadas. O torcedor sente, mas muitas vezes não tem ideia do que está por trás do jogo. Se o futebol pode ser apaixonante dentro de campo, fora deles muitas vezes é sujo. E ninguém vê. Ou quase ninguém. 

O lateral-direito Nei viveu um pouco de tudo. Brilhou, vibrou e sentiu, mas também sofreu com promessas não cumpridas, salários atrasados e falta de transparência. 

Hoje com 31 anos, o jogador, que chegou a viver bons momentos no Atlético Paranaense, conheceu o brilho e a sombra no Internacional. O brilho veio em forma de gols, um inclusive contra o Barcelona, títulos e carinho da torcida.

Para a reportagem de oGol, o atleta relembrou os bons tempos de Colorado, mas lamentou a saída. "Não foi o Nei que não renovou, foi a diretoria na época que fez sacanagem com a minha pessoa". 

O jogador falou bastante de sua passagem pelo Vasco, que teve poucos jogos, salários atrasados, um afastamento sem explicação e a admiração por Eurico Miranda. 

"O Eurico é um cara de caráter, palavra. O que ele fala para você, ele cumpre, independente de papel ou não. Ele é homem. Tudo que ele falou para mim, vírgula por vírgula, ponto por ponto, ele vem cumprindo até hoje. Dificilmente você encontra pessoas assim".

Após ter disputado o Campeonato Catarinense pelo Almirante Barroso, Nei treina no Rio de Janeiro aguardando propostas para o restante da temporada. "Se for para jogar Série B, Série C, o que pintar... Eu quero é trabalhar".

Leia a entrevista franca que Nei concedeu para oGol: 

O Internacional foi seu melhor momento na carreira?

"É difícil dizer. Eu fui muito bem no Atlético Paranaense, fui bem no Inter. O único clube que não tive passagem legal foi o Vasco. Com o Inter, eu mantenho contato praticamente com todos os jogadores da minha época, fui muito feliz no Inter, tenho amizade muito grande com jogadores que hoje viraram diretores, empresários... O Bolívar, o Tinga... São amigos pessoais fora de campo. E a torcida sempre foi muito boa, sempre me abraçou, sempre foi do meu lado. Sempre fui recebido com muito carinho, aplausos, pedidos para voltar...

Quais os momentos mais marcantes no Beira-Rio?  

"O título da Libertadores foi o título mais expressivo, então fica marcado. Torcida gritando teu nome... Um estádio inteiro gritando, é um momento marcante da tua carreira. Sair na rua e todo mundo chegar e te abraçar... Minha passagem toda foi muito boa. Título da Libertadores, gol contra Barcelona, gol na estreia da Libertadores contra Emelec. 

E gol, tem um especial?

"O gol contra o Emelec, minha estreia na Libertadores. A gente perdeu o jogo, mas foi um gol que todo mundo fala que foi muito bonito, de fora da área. Meu gol de falta contra o Santos, na Libertadores. Peguei muito bem na bola. Além do gol contra o Barcelona (amistoso em 2011), que não foi tão bonito como foram os outros dois, mas foi contra o Barcelona. 

Se arrepende de ter deixado o Inter?

"Eu me arrependo de, primeiro, ter confiado em pessoas. Eu falo para todo mundo: o cara que falar, bota no papel. Porque poucas pessoas têm caráter para seguir o que falam. Eu nunca quis sair de lá. Tinha renovação encaminhada, onde recusei propostas boas de clubes grandes na época, inclusive pagando mais. O presidente na época deu a palavra que ia renovar. Falei para ele: ´Quero que você seja homem comigo, porque tenho proposta para sair. Futebol é muito dinâmico, a proposta que tem hoje amanhã não tem mais. Quero que tenha caráter comigo e seja sincero. Querem renovar? Então está bom, não aceito a proposta que tenho´. Ele enrolou, enrolou e, no final, não acertou a renovação. Falaram que eu que saí, mas poucos torcedores sabem a verdade. Não foi o Nei que não renovou, foi a diretoria na época que fez sacanagem com a minha pessoa. Deram a palavra que iam renovar, e não renovaram. Fiquei sabendo pela Internet que não ia renovar. Depois nem tiveram a coragem de falar comigo. 

Como você viveu esse momento? 

"São algumas verdades que existem no futebol e poucos sabem. Machuca na gente. Eu ia renovar, eram mais três temporadas no Inter. Estava no momento bom com a torcida, era capitão do time. Na época tinha comprado apartamento, porque ia renovar... Tive que mudar toda a estrutura porque alguma pessoa não teve caráter para cumprir com o que disse. 

Se arrepende de ter ido ao Vasco?

"Não me arrependo de nada na minha vida. Fiz grandes amigos no Vasco, foi um aprendizado. Tive a felicidade de conhecer um dos melhores presidentes que trabalhei, o Eurico. Um cara diferente, aprendi muita coisa com ele. Tudo tem prós e contras. Não me arrependo de ter ido ao Vasco.

Fora do Vasco, a imagem do Eurico não é das melhores, mas muita gente que trabalhou com ele fala bem. O que você viu nele? 

"O Eurico é um cara de caráter, palavra. O que ele fala para você, ele cumpre, independente de papel ou não. Ele é homem. Tudo que ele falou para mim, vírgula por vírgula, ponto por ponto, ele vem cumprindo até hoje. Dificilmente você encontra pessoas assim. Acho que ele é o maior dos vascaínos. Ele defende o clube como a vida dele. Ele ama aquele clube, então ele transparece uma coisa para fora e para a gente mostra que é um ser humano. Ele é um cara diferente, sabe conduzir o Vasco e os atletas como ninguém. 

O que acha que aconteceu para você não ter dado certo no Vasco? 

 "O primeiro ano não era o Eurico, era outra diretoria. Peguei um ano muito conturbado, salários atrasados... O cara que fala que consegue jogar com salário atrasado é mentiroso. A gente tem família... Se fizer essa pergunta para qualquer um, se eu fizer para você ou para outro cara, você não vai conseguir desempenhar seu papel da mesma forma. Você depende salário para levar comida para casa. Todo mundo fala: ´Jogador ganha muito´. Ganha muito, mas sustenta muitas pessoas. A gente chegou e recebeu o primeiro salário em maio, abril... A cobrança era muito grande para o que oferecia. Por eu ser um dos líderes na época e cobrar muito, sempre fui de cobrar, de bater de frente. Chegou um treinador, também não gostou, acabei não jogando mais. 2014 fui afastado. Até então, para mim, o afastamento de um atleta sempre foi porque o atleta é indisciplinado, porque o atleta não quer. Eu sou completamente ao contrário. Quem conhece minha carreira, sabe o profissional que sou, o quanto eu trabalho, sou correto. Infelizmente, às vezes, o correto é questionado, não é bem visto por ser correto, cobrar. Por ser o primeiro a bater de frente. Em 2014, eu fui afastado, eu e mais sete jogadores. Alguns que não mereciam. O Michel Alves, profissional ao extremo, Wendel. Era difícil explicar. Eu lembro que todo mundo me ligava e perguntava o motivo. Em 2014, teve a volta do Eurico. Ele me chamou para conversar e a gente voltou. Ainda fiz alguns jogos, comecei a jogar o Carioca, Copa do Brasil, mas fiquei quase seis meses parado (lesão) e, quando eu voltei, o time estava muito bem. Por mais que estava na zona do rebaixamento, estava há oito, nove partidas sem perder. Não tinha como eu entrar no time. Fiquei trabalhando, esperando acabar o contrato e aí fui para o Paraná. 

O que a diretoria alegou quando foi afastado? 

"Nunca conversei com ninguém da diretoria. Foi passado na época para o meu empresário. Quando voltei, estava treinando em separado. E foi assim. Você vê que tem coisas que vem de fora. O treinador que assumiu ainda foi conversar, pedindo para eu voltar, mas a diretoria não queria que eu voltasse. 

Guarda mágoa de alguém? 

"Nem opino, não tenho contato, não são meus amigos, não faço questão nem de conversar ou saber como estão. Minha preocupação é com pessoas que me trazem o bem e somam na minha vida. 

Como foi o início da temporada?

"Estava jogando o Catarinense. Das 18 partidas, joguei 17. Acabou o campeonato, vim para casa esperar acabar os estaduais. Quero jogar mais quatro anos ainda. Depois, tentar começar minha carreira como treinador. 

Tem em planos alguma equipe ou torneio? 

"Estou treinando. Se for para jogar Série B, Série C, o que pintar... Eu quero é trabalhar. Se for coisa boa, que me dê estrutura para trabalhar... 

Você disse que quer ser treinador ao parar. Como será o Nei treinador?

"Sou muito hiperativo, não consigo ficar parado. Não nasci para ficar parado. A maior dificuldade (como treinador) vai ser essa. Ter de ficar parado, no banco. Eu vejo muito duas pessoas que sou fã e acompanho o trabalho: Tite e Simeone. Quero buscar me aprimorar como eles. 

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